quinta-feira, agosto 18, 2005

Sempre gostei de andar de noite, andar até doerem as pernas, como se lutasse para atingir um objectivo no ponto mais distante, sendo que quero apenas sentir a cidade, de noite.
É curioso como o ritmo brando e sinistro da noite sempre assustou as pessoas, mas para mim sempre foi atraente na proporção da densidade do escuro. A noite não distrai a visão, deixando a atenção disponivel para o concreto e o resto com a imaginação.
Se o bom da cidade são as pessoas porque será que gosto tanto da noite, quando a ausência humana se sente mais fortemente. Será o meu descanso do prazer que me todos me dão com a sua presença, sim, porque as pessoas cansam quando não se cansam e ficam em casa de noite, mudando a forma da cidade com luzes de janelas desordenadas no escuro criando a ilusão de vida para lá dessas janelas, quando apenas uma televisão as mantém ligadas à terra, que as espera serenamente independentemente do que fizeram.
O que eu realmente gosto é do recorte do céu pelos prédios que se juntam sem saber e traçam trajectos incompreensiveis mas relaxantes, que nos aguçam a imaginação tal como o sonho das formas das nuvens.